quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS....

E TODOS NÓS ADORAMOS RECEBÊ-LAS E ENVIÁ-LAS!

Ana Lucia Cruz, nossa confreira, anda com febre de Fernando Pessoa. Também pudera, Pessoa é o cara!
Para homenagear a Ana e o nosso poeta luso multifacetado, resolvi postar um poema dele que adoro. E esse poema fala de uma prática muito comum entre todos os poetas, sejam os mais antigos ou os mais modernos, cada um em seu formato: as cartas de amor.
Quem nunca as escreveu? Quem nunca queimou uma, depois de molhada de lágrimas e dor? Quem não guardou dentro de um livro "aquela" recebida de mãos especiais? Quem nunca rasgou aquela recebida, cheia de promessas não cumpridas?

Ah, as cartas de amor!!!

Tão ridículas, lindas e insubstituíveis como o próprio amor!



Todas as cartas de amor...

                                                                                          Fernando Pessoa
(Poesias de Álvaro de Campos)


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, 21/10/1935



Não escrevo cartas...

O que pode ser o amor... se não amar?
Amar a vida e as coisas à sua volta!
Amor, amar, a carta de amor pra se amar...
Amar a poesia, a música, o teatro... amar!

As cartas de amor também trazem dor,
O sofrimento se faz presente...
O coração, esse órgão que sente,
Sabe se expressar...
Amar!

Não escrevo cartas de amor
Porque o amor está em falta...
Nós não sabemos amar,
Nem ao menos sabemos o seu significado.

Não entrego cartas e nem recebo-as,
Sou preso em meus pensamentos,
Ora pensamentos obscuros
Ora livres ao vento.

(Antonio Félix)





Amor em cartas

Tragédias marcadas
Amores feitos , desfeitos
O corte , o retalho
As postas de um coração dilacerado.

A dor imunda que habita a alma
A grafia forte , visceral
De longe se via o arder
De longe se sentia o cheiro podre  do fel da rejeição...

Como sobreviver a tamanha dor,
Se a distância não me deixa nem ver-lhe os olhos?...
Oh! ...
Cair...reconstruir...
Rei deposto,
Será que foi de ouros?

Ana Lucia Cruz


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Carta de Saudade
Como escrever para você a mais bela carta?
Seria interessante
Falar dos seus olhos...
De sua pele...
Da sua boca ao me encontrar...
...

Lembrar desse perfume breve...
Seu cheiro envolvente
Do seu nobre jeito de amar...

Como esquecer as palavras?
Aquelas que me foram ditas
E escritas no baú de minha memória
Muitas que ainda estão vivas
Para resgatar nossa história

Não existe fórmula mágica
Só me resta escrever
Ressuscitar nosso instante
E me eternizar em você.

Manu Dias 




Porque lhe escrevo cartas de amor

Lhe escrevo cartas de amor
...
porque dizem que Deus é amor,
sendo essas palavras o mais próximo que eu
(um humano)
consigo chegar de Deus.

Lhe escrevo cartas de amor
porque palavras são o mais perto
que eu (um mortal) consigo chegar do eterno
(que é pouco)
e porque não consigo ver nada mais terno
(de um louco)
que uma cartinha de amor

Lhe escrevo cartas de amor
porque mesmo com toda essa tecnologia
isso me da a alegria da nostalgia
dos tempos que não voltam mais.

Lhe escrevo cartas de amor
pelo simples fato de te amar
Com todo o afeto e da maneira mais simples
simples como uma cartinha de amor.

Com carinho, Rhangel Ribeiro

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O passado nas cartas de hoje...

Guardadas, dobradas, amarelas ou estalando
transmitem amor que brota bem dentro,
falam de pele que exala prazer
buscando reviver o bom sem barreiras.
Outras dobradas com força sentida
ferida de sangue que jorra em nós
gotejam nervosas o sonho que vem
tirando, colocando, buscando alguém.
Sem muito a dizer
eu paro pra ler
dos tempos de outrora
da vida de hoje.
Lamento...
Ilusão...
Você...
Uau...
É vida.

Rodolfo Andrade


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CARTAS DE AMOR, NÃO!

Não faço cartas de amor,
embora eu seja da antiga.
Não gosto desse sistema,
...
se escrevo, você nem liga.
Vou chegar meio bandido,
segredar, ao pé do ouvido,
a lábia, a velha cantiga.


 
Gilson Maia

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A Carta...
Lagrimas despejadas em um papel...
No dedo, caneta, não mais anel!
E os olhos transbordavam fel...
...

Cacos de quimera por todos os lados...
Sussurros de dor abafados...
Ela estava sem baralhos!

Era ela, metade de um nada,
pois a vida mudou a jogada!
O amor partiu deixando apenas uma Carta.
Luana Lagreca

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Cartinhas

Mais que um quindim
Mais que um tiquim de pudim
do que paçoca de amendoim
...
no céu da boca.

É assim a sua doçura doce morena docim.
Ai de mim...
O seu jeito mais doce do que paçoca de amendoim
O seu beijo mais doce do que um pudim!


Matheus José Mineiro
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A CARTA


Esta historia que te pertence
Sabes bem como nasceu
Foram teus olhos duas correntes
O tanto que me prendeu.
...
Coração acelerado
Bate forte no meu peito
Tantos beijos e carinhos...
Deságuam em nosso leito...

Por ti, vivo a sonhar acordado!
Mas, por vezes
Me pego apreensivo, calado...

Espero impacientemente o correio
Por uma carta, uma carta de amor...
Que ainda não veio.
Paulo Roberto Cunha


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CONSELHO AO PAULO ROBERTO CUNHA


Não confie no carteiro.
Se ele for do contra, amigo,
se for cara zombeteiro,
... vai querer brincar contigo.
Tu esperas o dia inteiro...
Teu amor em desabrigo.


(Gilson Maia)

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Carta ao amor de ontem...

Querida,
escrevo esta carta
dizendo
ainda te quero
te lembro,
te ansio...

a carta diz
eu ainda te quero,
só, em silêncio,
abraçar por trás,
e morder pescoço
e arrancar a roupa.

a carta diz
ainda lembro
te amar pelo chão,
e te derrubar
e me esfregar
e te fazer capacho

a carta diz
ainda ansio
beber teu cio
e te fazer, louca,
gritar teu gozo
em um só galope
libidinoso

a carta,
tu não vais lê-la.

porque ,
essa carta,
eu não envio .

porque ,
essa carta,
virou gaveta.

Renato de Mattos Motta


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Cartas de amor

Seladas com adesivos, cuspe ou até cola
Em papeis de diferentes tamanhos e cores
Ora apraz e apaixona, ora maltrata e desola
Nada mais são do que cartas de amores

Escritas em dizeres, palavras difíceis ou versos
Todos já escreveram, receberam ou invejaram
Cartas que expressam os tipos mais diversos
De apaixonados que (nunca) se declararam

Em tons melancólicos, loucos ou delicados
Palavras doces, sedutoras ou sacadas
São homens e mulheres apaixonados
Munidos de uma cartilha de cantadas

Embora sejam tão diferentes, são muito iguais
Pois tratam de sentimentos que fogem à razão
Piegas, bonitinhas, ridículas ou fatais
São cartas de amor escritas com o coração.

Filipe Medon




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Querer.


Queria saber de onde ele vinha antes de chegar a mim, disse que queria e não que gostaria, porque era coisa de querer, gostar eu já gostava e querer tava querendo,agora, assim, com sede enganada que dá em dia frio, quando a gente passa o língua pelos lábios, secos, quase partidos e acha que é sede.
Queria porque tinha frio.
Não esse frio que malha de lã esquenta, um frio que só conhaque resolve, mas não gostava de conhaque, vinho tinha acabado e a situação não combinava com chá.
Queria porque queria.
Não aquele querer safado de esquentar corpo, suar corpo.
Quererzinho que vai esquentando devagar até você descobrir os pés e sentir o mundo todinho na temperatura ideal.
Queria, é certo que queria, um querer não avaliável, mesmo porque não tinha avalista pro seus quereres, também nem precisava de aval pra isso, é querer só meu, só importa a mim, mesmo porque não passaria a frente e seria querer silencioso, querer sem cara, querer sem gosto.
Querer de apenas fazer pensar quando não se pensa em nada mais.
Querer de direito, mas sem posse, como herança deixada de um passado desconhecido ou de que nem se lembrava mais.
Querer de antes de ele chegar a mim e a gente nem precisava lembrar que queria, porque já tinha.
Querer sem necessidade.
Perdeu-se nesse querer, porque é querer de antes e antes é tempo que não existe mais.

malmal ® 


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SE EU AINDA SOUBESSE O SEU CEP DE COR

se eu ainda soubesse o seu CEP de cor
lhe devolveria as suas meias
embrulhadas
em suas meias verdades
pra você se proteger do frio
que me disseram que agora lhe assola

se eu ainda soubesse o seu CEP de cor
faria um esforço e as enviaria de volta
[talvez até ficassem bonitas
se impecavelmente envelopadas
em um amontoado de palavras mortas]

mas eu não posso mentir pra você
e a verdade é que há muito
eu joguei tudo fora
há muito eu joguei você fora
e do pouco que restou
ainda faltou eu lhe dizer o pior:

a verdade é que eu nunca soube
o seu CEP de cor

Germana Zanettini
Porto Alegre - RS


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CARTAS DE UMA RAINHA


“Meu amor,é sabido que a formação deste enlace... 
Elege apenas páginas que sustentam um olhar!
Convém propagar mais sentidos e inserir satisfações,
Cuja fatalidade meu coração não possa ignorar.”

Ela discorria com classe, e os seus olhos retumbavam em lágrimas.
A razão suprime o exuberante, mas não consegue cortar
Do peito a dor e a cor...
Não consegue perdoar a discrepância que há na saudade.

Dizia mais: O imperador dos tempos modernos é o desejo!
É ele quem cobiça e subverte os sentidos com falsa moralidade
De que eu não te quero mais!
Mas ainda nuança os velhos gemidos...

Façamos melhor! Sejamos mais que poetas a mastigar política em cartas de amor.
Mudaremos a ordem dos partidos! 
Meu senhor! Cria em mim a liberdade. Seja a chave capaz...
De decifrar qual soberana é a palavra amor.

De Magela e Carmem Teresa Elias



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Obsessão: elas tinham de ser escritas

As cartas que nunca te escrevi
Escrevem minhas noites brancas
Como que enviadas 
A remetente não encontrado
E retornam ao destino inicial

Rosana Banharoli


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CARTA NA SOLIDÃO DO AR

tu não vês
que o que sinto sempre
ou escrevo são apenas algumas palavras
não sou mais que o teu silêncio
ou teu eco nestas sílabas
vogais e consoantes num papel envelhecendo...
falei muitas coisas
coisas que vc jamais vai entender
com lábios de vento, língua no coração
como se palavras fôssem apenas motivo de fome
e sede nesta carta que jamais escreverei...

Adilson Alchuiy
Santo André - SP


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Uma fecha ao passar,
Outra abre ao achar.
Dividem a mesma casa.
Mas se o sentimento fecha
A outra o fim desfecha.
Dividem a mesma cômoda.
Uma a olha de frente
A cômoda apenas lhe acomoda.
O que é dado ao futuro?
De saber o que se perdeu!
Quem pode perceber no escuro
As lágrimas caídas por cima dela. 

Fernando Sousa Andrade



Um comentário:

Manu Dias disse...
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