terça-feira, 1 de maio de 2012

PARA OS DIAS DE CHUVA

Em Petrópolis, cidade histórica do interior do Rio de Janeiro, onde nasceu esta jovem Confraria, talvez seja a cidade em que mais chove nesse imenso Brasil. Por isso a chuva, ora portadora de vida para as sementes, ora portadora de tragédias incalculáveis, vira assunto para matérias jornalísticas, teses acadêmicas e muita poesia.
Nós aqui, preferimos ficar com a parte da poesia.




A CHUVA EM PETRÓPOLIS


Chuva pela manhã; chuva à noitinha,
às seis, às oito, às quinze, às dezenove;
Sem guarda-chuva o tempo não caminha,
e sem galocha a terra não se move.

Perde a cidade da elegância a linha!
É chuva e lama! Por Jeová! Por Jove!
Quem é que pode ser “almofadinha”
quando assim chove, chove, chove... Chove?

Há muito não se vê nem sol nem lua;

Com medo de uma gripe ou de um pleuriz

já ninguém mais os pés porá na rua.

E o professor Delpech assim me diz:
“No verron, se esse inverno continua
isto aqui passa a ser Pleut-trop... polis.

(Bastos Tigre)  
em: Jornal de Petrópolis, 19/12/1924

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(E essa foi a primeira brincadeira poética de chuva, despretensiosa como todas, na Confraria)



Já que a chuva não passa
Vou deixar passar o tempo
No sofá do meu abrigo
Nos livros que ler eu tento
E ficar aqui comigo
... Ouvindo na minha vidraça
O som da chuva que... não passa.



(Catarina Maul)

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Um dia qualquer


De pijama sento em frente à televisão,
minhas meias encardo...
no chão empoeirado.
Chuvisca estilete,
dá pra ouvir no telhado,
Meu banquete são migalhas de pão...
no fim, miolos.
Enfim...mais um dia perdido.
Igual a todos os outros.


( Rhangel Ribeiro)


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 E quando a chuva chegar,
trazendo o cheiro
de terra molhada no ar,
irei sentir o perfume de sua presença,
em meu lado, deitado na cama,
... escutando as gotas começando a cair.

E o vento,
ao bater as janelas me faz levantar
e olhar com calma,
esperando voltar para cama e lhe encontrar...

Ganhar um abraço e voltar a dormir,
com o cair da chuva a nos ninar.

Enquanto a chuva cair, ainda irei me iludir,
com sua presença em minha cama...

(Arthur Hendrix)

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A água  

A água, elixir santo,
virou morte, virou pranto
apagou todo o encanto,
a paisagem destruiu.
Mas a paisagem, nem tanto
tem a dor de ver o quanto
de morte o povo sentiu
ao ver matarem seus filhos
a água e seus rompantes
que, em segundos, instantes,
tudo acabou e ruiu.

Água que é fonte de vida
vira a fonte da morte,
nem pra beber leva a sorte
de cumprir sua missão.
Mergulhado na imensidão
da água feita de lama
da água feita de lixo
tem sede o cidadão.

 - Pelas enchentes em Santa Catarina - 

(Catarina Maul) 


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A CHUVA
Ora gostosa no tilintar no telhado
marcando a cadência de um dia sem dor,
buscando lá longe lembranças passadas,
querendo viver pelo seu valor.
Ora é vidência de amores de longe,
aqueles guardados no fundo do ser,
que se foram pra lá do fim do mundo
na esperança de um dia viver.
Ora matreira vem de arrasto
sem dó nem piedade machucam você
linda, mesmo assim vem destruindo,
o passado e o presente que vê.
Ora é só ela, de verdade ou mentira
destrói uma rocha ou constrói um castelo,
comunga o artefato real,
transforma o triste no belo.
É pura, porém duvidosa,
extravagante e singela,
marcante e indiferente
é ela a chuva.

(Rodolfo Andrade)


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Alma molhada

Adoro chuva!
Chuva é toda poesia...
A cadência, as notas, o som...
Chuva é cor que se dá a ela
As nuances...

Reflexos do que temos e sentimos
Esse é o tom , a intensidade que ela tem.

Adoro chuva!
Deitar no chão e se deixar lavar
Sentir os pingos a doer na pele
Cravando a força de sua limpeza
E deixar  a alma impregnada...

(Ana Lucia Cruz)

                                   
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Contribuição de Renato de Mattos Motta






Caso pluvioso


A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que Maria é que chovia.
A chuva era Maria. E cada pingo
de Maria ensopava o meu domingo.


E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.
Eu era todo barro, sem verdura...
Maria, chuvosíssima criatura!


Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.
Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa...Nossa!


Não me chovas, Maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.
Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!


Eu lhe dizia em vão - pois que Maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.
E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,


que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.
Chuvadeira Maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!


Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,
poças dágua gelada ia tecendo.
Choveu tanto Maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa


e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.
E quanto mais as ondas me levavam,
as fontes de Maria mais chuvavam,


de sorte que com pouco, e sem recurso,
as coisas se lançaram no seu curso,
e eis o mundo molhado e sovertido
sob aquele sinistro e atro chuvido.


Os seres mais estranhos se juntando
na mesma aquosa pasta iam clamando
contra essa chuva estúpida e mortal
catarata (jamais houve outra igual).


Anti-petendam cânticos se ouviram.
Que nada! As cordas dágua mais deliram,
e Maria, torneira desatada,
mais se dilata em sua chuvarada.


Os navios soçobram. Continentes
já submergem com todos os viventes,
e Maria chovendo. Eis que a essa altura,
delida e fluida a humana enfibratura,


e a terra não sofrendo tal chuvência,
comoveu-se a Divina Providência,
e Deus, piedoso e enérgico, bradou:
Não chove mais, Maria! - e ela parou.


Poema de Carlos Drummond de Andrade

Voz de Paulo Autran



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Com tanta gente linda, maravilhosa e nova na Confraria, prosseguimos numa segunda leva de poesias sobre a CHUVA complementando o primeiro desafio. Atualizado em 01 de maio de 2012.





TEMPORAL D’ALMA

Refletidas
na vidraça da janela,
minhas lágrimas
confundem-se
com os respingos
da chuva.

Tão turva, penso:
A vidraça
E a vida…

(Edweine Loureiro)

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CHUVA

São gotas de paixão
Mas quando se junta
É rio de amor
Percorrendo...
As margens do coração.
Compondo paisagem
Suave e delicada
Bailando nos galhos
Acariciando as rosas
Regando os sonhos
Do menino sonhador
Chuva de paz...

(Alex Avena)



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ÁGUAS

Há diferentes esperas
como águas,

a chuva,
a lágrima,
vertentes.

Em mim
o gole que sacia
e você
quando súbito
me vem
me fazendo
temporal.

(Malmal®)




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Por querer

Sim, me chame
pra cometer uns vexames
Entrar pela chaminé
Cair cheio de fuligem
Embarcar na tua vertigem
e tirar o chão do pé


Sim, me clame
pra que eu, por mais distante
te ouça e chegue ofegante
pleno de desejo e ânsia
a nado, a pé, de ambulância
agigantado de amor


Rei e rainha
Vamos tocar campainhas
Fugir, rindo de nervoso
Vamos protelar o gozo
no nosso lúdico Tantra
Nossos nomes feito mantras


Se esparrame
na rede do meu abraço
pra juntar cada pedaço
Muitos que sou por você
depois de dançar na chuva
e antes de adormecer


Sim, me ame
que eu te faço um origami
da cor da minha paixão
Me viro em uma canção
que ressoe em teus ouvidos
depois que eu tiver partido

(Jorge Ricardo Dias)


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poema frio 


inverno 
inaugurou hoje
não no calendário, 
que lá inda é outono, 
mas no ano
no dia
na pele. 


inverno 
invadiu o ar
que chora 
uma chuva 
molhada
chuva de inverno
molha até os papéis 
(os que estão 
nas gavetas) 


inverno 
chove triste
molha a roupa
molha o corpo
molha os ossos
chora o dia 
até virar noite 


inverno 
encharca 
as calçadas,
emboscado 
embaixo das lajes, 
alagando frieiras, 
penetrando por 
insuspeitos 
buracos no sapato. 


inverno 
triste e cinzento 
como o dia
como a cidade
como o mofo 
das paredes
e da alma 
das pessoas 


se o inferno
fosse frio,
seria inverno. 


(Renato De Mattos Motta)



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CRIANÇA PERDIDA

Pés descalços e sem camisa
embrulhados em bermudas de adultos.
Grotescos e humilhados,
esses garotos parecem fantasmas
na sombra que a ausência da lua
cria nesta noite chuvosa.

Que futuro podem ter
diante de realidade tão crua?
Se o presente é desapego
e só conhecem o desprezo por suas vidas,
resta apenas o caminho da aventura
fugaz, sem volta, só ida.

Maria Carmo Bomfim


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A chuva está forte lá fora,
ela bate no telhado,
escorre pela janela
como se fosse lágrimas.
Há em mim uma saudade
que chove tão forte 
feito a chuva lá de fora, 
chove tanto que inunda a alma
e escorre pelo olhos

Helô Strega



Um comentário:

Carmem Teresa disse...

Olá, Catarina. Acabei de descobrir seu blog e combina em cheio com esse dia de chuva. Adicionei meu espaço como seguidora sua. Adoro chuva e amei os textos ( Rezando para a chuva não catigar a cidade) . Parabens pelos textos selecionados e postados. Aceita contribuições em textos?
Abração
Meu blog : poesiasdecarmemteresa.blogspot.com