segunda-feira, 18 de março de 2013

Petrópolis chora


SEGUNDA-FEIRA, 18 DE MARÇO DE 2013

Petrópolis, 18.03
Às 15h de domingo vi a primeira pancada de chuva no bairro Siméria. Enquanto isso, no Cremerie não chovia. Às 16h chovia nos dois lugares e, desde então, não parei mais de ouvir o barulho da chuva caindo até agora. São 11 da manhã do dia seguinte. São 20 horas de chuva. 

No início ninguém se assusta, é perfeitamente normal essa chuva prolongada em Petrópolis. Mas no fim da noite começaram a surgir as fotos dos rios transbordando assustadoramente, a água no Centro Histórico em uma altura impressionante e os pedidos de socorro. Eram pessoas presas em lojas com a água alta, presas nos carros inundados gritando "Socorro", enquanto quem morava em frente nada podia fazer (realmente não tinha como sair de casa), notícias de que outros estavam soterrados e não havia passagem até os lugares nessas condições. De brinde, ainda houve vazamento de gás em um dos bairros de condições mais complicadas e os bombeiros não tinham como resolver. Quem conseguiu dormir foi se deitar acreditando que ao amanhecer a situação estaria menos crítica.
E não está. Realmente não vemos tanto pedido de socorro nem gente avisando que as pessoas estão presas com água na cintura aqui ou ali, mas vemos as imagens de barreiras enormes, de pontes e até mesmo ruas destruídas. Vemos as fotos que provam que NADA ontem era exagero: os rios transbordaram e fizeram da cidade toda um rio enorme, são realmente assustadoras. 

Primeiro de tudo: não é só falar, tem que fazer. De todos esses que compartilharam fotos nas redes sociais, não posso negar, vi bastante gente se manifestando para ajudar, se esforçando e se preocupando com o próximo. Me orgulho. De qualquer forma, vi também muita gente expressando seu pavor diante da situação, mas nada faziam... muitos, nem farão. Continuarão em casa, já que foi decretado ponto facultativo pelo prefeito, se aterrorizando com as imagens e com as notícias que muitas vezes estão atrasadas ou nem são reais, e amanhã (ou quando for possível) voltarão para suas vidas normalmente, sem se preocupar em agir diferente ou levantar-se da cadeira em frente ao computador para ajudar. 
Os pontos de apoio, outros lugares e outras pessoas estão recolhendo e precisando (e muito) de alimentos não perecíveis, agasalhos e cobertores. Para muitos não parece preocupante pois nós, que estamos aqui digitando, estamos seguros em casa, agasalhados e alimentados. Mas eles não tem como nos pedir nada, estão em um lugar com um grande número de pessoas e provavelmente com frio, tendo que dividir a comida com um número considerável de pessoas.

Depois, minha maior reclamação, o que eu vou mesmo focar pois me preocupa tendo em vista que não é um ponto que deve ser discutido diante de tragédias e sim todos os dias, como obrigação de cada cidadão que quer ter o direito de reclamar que o prefeito não faz isso ou aquilo e todas as outras reclamações hipócritas que vemos por aí. 
Pois bem, há pouco tempo tivemos um problema com a falta da coleta de lixo em Petrópolis. Antes de tudo: o problema foi no governo Mustrangi, não vejo sentido citarem esse fato culpando o Rubens Bomtempo. Não sou, nem de longe, uma defensora do atual prefeito, mas acho essencial que olhemos todos para nossa própria consciência e responsabilidades enquanto cidadãos. 
Em muitas fotos de barreiras, vejo sacolas plásticas e lixos espalhados em uma quantidade que não dá pra acreditar que é por falta de coleta. Não dá pra acreditar porque não é mesmo! É ficar 10 minutos na rua que você não tem mais dedos pra contar quanta gente jogou lixo no chão. São essas pessoas que só querem conhecer seus direitos mas não estão em dia com seus deveres. Deveres esses que não são com o governo, com a prefeitura, com o estado, mas sim consigo mesmo e em respeito a todos que contribuem para uma cidade limpa. 
Não estou culpando ninguém pelas tragédias, é uma catástrofe natural que, infelizmente, está se tornando cada vez mais comum e maior na Região Serrana do Rio. Estou apenas tentando lembrar a todos, e a mim também, que precisamos ser solidários todos os dias (todos mesmo!) e que, embora seja de extrema importância a ajuda que vamos dar no momento de desespero de quem precisa, cada um precisa ajudar o outro sempre. Não evitaríamos a chuva, é claro, mas tenho certeza que, ao menos, diminuiríamos o número de encostas condenadas pelo lixo acumulado debaixo da terra ou, no mínimo, os estragos que a queda dessas encostas causam. 

Escrevo para lembrar, até por forma de pedido, que temos esse dia em casa e não podemos sair para arriscar nossas vidas. Vamos sim continuar a campanha no facebook e usar a internet para espalhar e receber notícias, mas vamos também abrir não só o armário de roupas e de cozinha, mas o coração e a mente. Abram seus corações, sejam solidários e separem roupas que não usam mais. Se não tiverem alimentos para doar em casa, comprem o que puderem (e se puderem) de alimentos não perecíveis e material de higiene. Depois do mercado, leve até um ponto de apoio. Tem muita gente precisando. Enquanto fica em casa, abra a mente e pare pra pensar na ação mínima de cada dia que cada um de nós pode fazer e não faz, tire a lição da situação ruim pra levar de lição que podemos contribuir pra uma cidade ao menos um pouquinho melhor. 
E aproveitando o espaço do comentário sobre a política e o prefeito, só mais um pedido: se você está insatisfeito com o governo, não anule seu voto nem diga que não vai votar porque é sempre a mesma coisa. Mexa-se, mais uma vez, como cidadão e lute por um governante honesto na cidade. 

É isso. Que muita luz seja emanada pra cada uma dessas pessoas que precisam do nosso apoio!

Carolina Machado


Após ler esse texto de Carolina, Catarina Maul lança mais um desafio aos poetas da Confraria:


Petrópolis Chora





Lágrima que mata

Eu olho da janela, o dia chora 
Porque minha cidade está tão triste
Difícil acreditar, mas isto existe: 
tormenta, escuridão a essa hora

Pedido de socorro, escuto agora
Gemido aqui sem trégua, ainda persiste
A mãe procura o filho e não desiste
de tê-lo em seus abraços como outrora

Não sei o que fazer, me sinto inútil
Não quero ser mais um discurso fútil
Só resta-me escrever nesse momento

Na minha pequenez, então eu grito
e deixo a minha dor, aqui escrito
Em versos eu transformo o meu lamento


Luciana Cunha - 18/03/2013
Petrópolis/RJ
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Lágrimas -18/03/2013

Há momentos em que me sinto
Na maior das impotências
Olho e vejo, 
Sinto e percebo
Pequenez 
Diante da dor...


Ana Lucia Souza Cruz
Campos dos Goytacazes/RJ
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Um bom acordo é melhor que a desgraça

Saia da frente, livre a minha estrada,
agora é minha vez, o meu momento.
Se houver barreira eu juro que arrebento...
Há tempos faço aqui minha jornada.

Vem, depois, o jornal, sou mal falada...
Não faça em meu caminho, acampamento,
tire a sujeira. Faço um juramento:
eu passarei, mas sem destruir nada.

Será que não existe engenharia
capaz de calcular o meu trajeto?
Fale, poeta, em sua poesia!

Peça manilhas, muros de concreto
e menos lixo, menos covardia...
Governo e povo sejam mais corretos.

Gilson Faustino Maia


Petrópolis/RJ
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Maquiavélica

Sem medo você vem
seu grito é forte 
a caminho do norte 
seguindo em frente 
chegando onde quer chegar. 

Quando passa não vê obstáculos 
imaginando ser única no universo 
o choro da criança não vê, 
nem a dor da mãe que acolhe
únicos são seus vernáculos.

Abala com tamanha violência 
com toda vil brutalidade 
como dona da verdade 
se acha a única com certeza 
destruindo a natureza.

Que vai seguindo feliz sem dor 
de bela imagem que é conceito 
seu tesouro a liberdade 
com que consegue tudo que quer 
apenas pelo respeito.

Espero que sem demora 
siga seu rumo sem fim 
partindo sem deixar rastro 
um que seja de verdade 
vai pra longe tempestade. 


Rodolfo Andrade
Petrópolis/RJ
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Nas viagens de fantasia 

Sobe morro 
desce barranco 
pula cerca 
caminha doidão.

Maltrata a natureza 
castigando seu corpo 
finge ser forte 
pensando bem alto 

Comida pra que 
beleza é a luta 
na hora da morte 
fez o que pôde.

Falar papagaio 
é mestre de tudo 
repete o dito 
mas preso na gaiola 

Errado não era 
simples mortal 
viveu para o mundo 
esqueceu de viver.


Rodolfo Andrade
Petrópolis/RJ



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PETRÓPOLIS CRUCIFICADA

Não existe brilho na lama
Nem Poesia imunda
Palavras não florescem lótus
Versos não carregam cruzes

Não se culpa a água 
Pela enxurrada
Água é isenta
De pecado e de benção

A natureza tem suas próprias asas:
Como anjos!
Caídos...
Ou elevados aos céus...

Oremos, sim, 
Pelos homens que morrem na lama !
São dois os seus destinos:
Os soterrados
E os que carregam o poder e o dinheiro na mão.

Nós, os sobreviventes,
Somos todos vassalos de Pilatos:
Lavamos as mãos !!

Depois, oramos pela Ressurreição!
Oramos pelo Perdão!
Oramos pela Páscoa na Consciência Humana!!

A cidade estava florida pelas flores da Quaresma ...
Viram a árvores roxas? Páscoa que se anunciava... 
Ao invès, veio o sacrifício...


Carmem Teresa Elias
Rio de Janeiro/RJ

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Onde a dor tem razão

Soam fúnebres os órgãos dessa serra
De caladas línguas de lama
De lágrimas secas de não ruir mais nada
Boiam fotografias divorciadas de gente 
Enquanto a lama empana corações
Reina (aqui) a vaidade laranja das encostas 
E rios de beber-nos riem de nós
Munidos de mágoas de chuva
Vão tingindo o mar de desgosto
Dilacerando moradas por dentro
Semeando saudades por fora
Fugindo e deixando pra trás o pó
E essa gente que a ele retorna.


Álvaro Assis
Petrópolis/RJ
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Caiu.
Caiu o morro, enterrou a casa e deixou os corpos.
Quem ficou diz que a casa caiu, em amplos sentidos.
Nada mais é vivido: enterrem os mortos!

Tudo caiu e algo ficou.
Nessa rima se encaixariam dor, pavor, terror, temor.
Mas hoje não faz sentido rimar.
Muita gente chora, muita gente ora
mas, por ora, vamos ajudar!

Carolina Machado
Petrópols/RJ
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É hora de mudar!!

Chora a cidade inteira
Chora a mãe que perde o filho
e filhos que perdem os pais
Há seres tão inocentes 
que partem de volta ao Pai
Chora o bombeiro que vê
de perto a desolação
Chora quem faz de tudo
em busca de doação
Em meio a tanta tristeza
Permanece uma esperança
Ela não pode morrer
Aos que creem na bonança
Aqueles que já partiram
que Deus os receba nos braços
Façamos uma nova história
mudemos os nossos passos!

Fernanda Foster
Petrópolis/RJ
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Imensa escuridão,
Dor, perdas,lamentação...
Dos céus as águas que levam,
Que lavam a alma...
É preciso ter fé,
É preciso ter calma,
Um pedido de paz
Em oração...
Senhor conforte o coração,
Desse povo, dessa gente...
Forças pra seguirem em frente,
Ó Mestre jesus... Irradia...
Muita, muita luz,
Na hora da travessia.

Felipe Quirino
Rio de Janeiro/RJ
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Súplica

Se o abrigo me escapa
suplico ao universo
(Con) sentimento do verso reprimido
Guardado de canto,
Escondido no poço do pranto...
Que nos chegue salvação.

Da súplica
Pode ser que venha a cura
Deste mal assim difuso...
Assim talvez nos chegue o sorriso
ainda que confuso 
Desta cidade...
Que (muito) nos falta...

Quando a porta do sol escancara
E os sonhos se tornam sombras
O anseio por renascer da morte
É mais forte e seria...
Como escrever outra vida.

Pois dos tantos sonhos frustrados
Alucinados encantos, vidas fragmentadas,
Em utensílios despedaçados...
Transbordam um rio profundo 
De prantos descompassados.

Paulo Roberto Cunha
Petrópolis/RJ
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SEM

O que será dos desabrigados
sem as suas lembranças,
porta-retratos e álbuns perdidos?
Esperanças são para o futuro
e o passado está destruído.
O batismo das crianças,
aquele choro gravado
de água e sal
na pia batismal,
a primeira comunhão,
as festas de aniversário,
os bolos, e agora o desconsolo.
Resta a memória afetiva,
que não poderá ser revivida
sem as imagens clicadas.
O que será dos desabrigados
sem terra, sem casa,
senão mais uma luta ,
um sopro de indignação,
para mantê-los de pé
e construir outro chão.

Maria do Carmo Bomfim
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A pedra.

Poderá
A pedra
Tirar
A estrela
de Pedro?

A chuva
Aperta
E a pedra
Rola
Junto
Com o barro
Que borra.

E vidas se vão.

Pedro
Viu paz
E beleza
Na pedreira
E a vida
Continua
Na Estrela.

A pedra
É atroz
Pedro a amou
E a fez estrela.
Assim é
Petrópolis...

'Amor pedreira'.


Giancarlo Kind Schmid
Petrópolis/RJ
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Petrópolis chora

Hoje a chuva cai
E leva com ela...
Sonhos vividos
Vidas estáveis
Paredes concretas
Um pouco de mim
Um tanto de nós
Lágrimas escorridas
Mãos estendidas
Buscando um pouco de vida
Por debaixo dos escombros
A chuva cessa
O sol aparece
A esperança renasce
E a vida novamente se fortalece


Claudia Marinho
Petrópolis/RJ
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É UMA TRISTEZA SÓ

Jamais podia imaginar
Que um elemento natural
Que chamamos de água.
Pudesse ter tanta
Força assim que
Sai levando tudo
Que vê pela frente
Mão importa o que
Está no caminho.
Sem contar com as
Barreiras que caem
Dos morros e saem
Derrubando árvores
E casas. É uma
Tristeza só.
Por essa razão que
Infelizmente perdi
Um irmão de coração
Que água levou
Para encontrar com
O nosso pai celestial
Que levou para morar
Com os anjos lá no céu.

Alan Bastos
Petrópolis/RJ
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As águas de março que fecharam o verão
Não trouxeram vida, e sim destruição
É pau... é pedra... fechando caminhos
Destruindo sonhos, perdendo o ninho

“É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho” (Tom Jobim)

Tania Montoya
Petrópolis/RJ
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Eldorado

Ditos os clichês os mais surrados
Feitos os discursos mais banais
Pérolas do óbvio aos bocados
Nau que vai a pique em pleno cais

Quando a fome aperta e o teto falta
que fagulha acende a esperança?
Ratos são tangidos pela flauta
Homens, pelo mel da fala mansa

Nesse jogo as cartas são marcadas
Onde o risco sempre é quase tudo
e a recompensa, quase nada

Bala adoça a boca ou fura o peito
Líderes falando e o povo mudo
Fila indiana em beco estreito

Jorge Ricardo Dias
Rio de Janeiro/RJ

domingo, 17 de março de 2013

Fotografia


O que seria a vida sem registro? Como eternizar os momentos? Como, depois de anos, décadas, períodos, explicar exatamente algo, sem ter o recurso da fotografia?
Pensando nisso resolvemos fazer dessa arte o desafio poético da Confraria.
Dedicamos esse post a tantos mágicos poetas que traduzem em imagem o que tentamos traduzir em versos.

Poeta das lentes com olhos humanos

Poeta das lentes,
vê o mundo sob o foco
Que parte de seu próprio olhar.
Capturando nuance,
Vislumbrando o alcance
Do que as suas lentes podem abraçar.

Sonho, flash, transparência,
Tudo é matéria, é inspiração.
Poeta das lentes, faminto de imagens...
Mas o mundo só as oferece
Aos que trazem nos olhos
A percepção.

Poeta das lentes,
O mundo sob o seu foco
Ganha outra dimensão.
Outras cores, outros ares
É fagulha, sintonia...
Explosão.

Catarina Maul
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Flash

Movimento
Indelével momento
Fragmentos
Eternos.

Ana Lucia Souza Cruz
Campos dos Goytacazes
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RECIPROCIDADE ( ou FOTOGRAFIA DE UMA SOLIDÃO) 

Às vezes,
Ela se sentava,
Displicentemente, à janela.
Em seu silencio, olhava tudo que lhe vinha lá de fora
E, durante horas, se colocava a escrever e escrever.

Às vezes, quando a via assim,
Eu queria tanto e tanto lhe falar,
Mas não sabia como, sem perturbar.

De seu silêncio,
Não raro ela me olhava e sorria.
E eu também a olhava e sorria,
Retribuindo a atenção que havia, entre silêncios.

Tempos depois ela partiu.
E até hoje eu me sento displicentemente à janela,
Olho tudo que me vem lá de fora,
E me coloco a escrever e escrever
O que o meu silencio
Jamais me deixou lhe dizer

Revirando as poucas coisas que ela deixou,
Havia uma página escrita
Em que ela dizia
O quanto meu silencio lhe doía
E o tanto e tanto que ela queria me falar,
Mas não sabia como, sem perturbar.

E quando olho tudo que me vem lá de fora,
Reflito no coração o modo como ela me olhava e sorria.
E, então, escrevo, 
Como ela escrevia,
Para falar do silencio que tanto doía

Carmem Teresa Elias
Rio de Janeiro/RJ
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Um click
e
nasce 
a
eternidade.

Luiz Fernando Villas Bôas
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FOTO-GRAFIA

Qual é o olhar de uma foto-grafia?
Captura-se uma alegria?
Registra-se um sofrimento?

Eu focava os seus olhos !
E aquele negro entendimento
Que eu pensava ver do tempo.

Mas a imagem revelada exibia mais que meus cuidados
Imprimira a anônima realidade colorida à sua volta
Imprimira o conteúdo absurdo do mundo!!

E o seu olhar...
Perdido
Na multidão.

Carmem Teresa Elias
Rio de Janeiro/RJ
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Vou achar uma aura,
Vou perde-me no seu tempo,
Ver seu rosto em meu gosto.
È o futuro de uma estrela
È uma ponte entre o sim e gozo
De sentimentos e gestos
Protegendo a fonte da eterna juventude.
Aqui o momento é tempo
De eternizar o seu nome
Num retrato bem memorizado e amado.
A foto é um tento ao rito.
É a única que não desaparece do espírito.

Fernando Sousa Andrade
Rio de Janeiro/RJ
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Coração, casa-cor

Fiz na foto o final do evento...
Quando a maquiagem não mais escondia,
Esses compromissos de outrora, 
Desgastando o meu momento.

... Rupturas e permanências...
O que entregaria a você além da excessiva flor...?
Muitos rostos exibindo cremes...
Outros escondidos atrás de seus dentes...

Que vontade de arrancar aquela decoração exuberante!
Gritar que tudo deve ser como rostos em dia de verão.
E não um salão exaltado, passarela de desfile de outra emoção...!
De que valeria dizer no convite que a festa não é a rigor...?

Que não traga mais flores expostas em abraços!
Não descolorem as matas de seus manacás!
Não alegue que o amor prefira cores sem fins!
Fotografe sem compromisso... Mas prefiro a solidão de meu jardim!

De Magela e Carmem Teresa Elias
São Paulo/SP - Rio de Janeiro/RJ

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Revivendo 

Momentos...
Doces momentos
Guardo no porta-retratos

Cada cena, uma lembrança
Cada sorriso, uma esperança
E a vida passando em lances

Cleide Jean
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Meus olhos

Meus olhos, quanta magia
ao captar a beleza,
oferta da natureza
que me traz tanta alegria
ao raiar de um novo dia,
no verde lá da colina!
Mas se lembro da menina,
renasce aquela saudade
dos tempos de pouca idade.
Isso ainda me alucina.

Meus olhos, que travessura,
com suas lentes perfeitas
registravam sem suspeitas
seu olhar de formosura
e sua bela escultura!
Hoje é só melancolia
no peito em que ela vivia,
mas sei o quanto era linda, 
pois minh’alma guarda ainda
a sua fotografia.

Gilson Faustino Maia
Petrópolis/RJ

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Foto de Cartier-Bresson

Fragmomento

A vida é fugaz
Jamais se detém
E a foto a retém
Não deixa pra trás

E assim congelada
a história fadada
ao esquecimento
é eterno momento

A fotografia
Centelha-faísca
é um olho que pisca
pro que morreria

Que coisa engraçada
Vida é movimento
O ínfimo fragmento
é foto parada

Jorge Ricardo Dias
Rio de Janeiro/RJ
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E a imagem se fez

Encanto
magia 
tristeza 
alegria.

Reflexo 
latente 
sombra 
veemente.

Textura 
revela 
cores 
congela.

Marca 
magia 
vida 
fotografia.

Rodolfo Andrade
Petrópolis/RJ
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O tempo só não passa na fotografia

Anotações escondidas em um diário na gaveta;
Uma foto na espera silenciosa de que algo aconteça.
Dar algumas voltas é método do destino...
Quem sabe, se algumas verdades ele não solta?

Olhando aquelas coisas, ali bem guardadas, lembrei-me de minha prisão.
Da perfídia das boas intenções que vira o amor, roubando palavras
Para esconder os fantasmas que a alma gospe,
E sem dar maiores resignações...

Com a mesma sensação de quando se inspeciona o silêncio!
Percorrendo a saudade, como se ela fosse um simples diário!
Tendo entre as mãos do desespero, do tempo que só não passa na fotografia...!
E como pessoa não autorizada, a alma não se deixa penetrar por essa ousadia.

Meu amor não é vitoriano e dos bons modos!
Nunca buscou forma e confrontação...
Não soube de veneno, lábio embevecido!
Não ficou no passado, como um amor esquecido.

Roma Magela
São Paulo/SP
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Fotomagia

Disseram-me que era impossível parar o tempo,
Aproveitar mais daquele momento de alegria
Porém não aceitei.

Não fui a única a refutar tão regra, quem seria?!
Alguém com mais conhecimento que eu
Um bruxo que criou uma caixa mágica.

E nesta caixa pode se guardar as alegrias
Aquele segundo inesquecível fica impresso em cores.
Aquela cena vivida cabe em suas mãos.

E o verbo fotografar nasce.
E o verbo admirar se intensifica.

Laleska Freitas
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PRETO E BRANCO

O canto
Que a foto não roubou
Do pássaro...

O ruído do vento
Que para sempre soprará
Na lembrança

O que a foto guardou da imaterialidade do momento ?
Apenas um ponto de luz
Aprisionado na escuridão da nostalgia !

Beatriz Ribeiro
Rio de Janeiro/RJ
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Antes do "click",
o sorriso,ele ficará
mesmo velha,amarelada
a lembrança lá está!

Momentos felizes,
registros marcantes,
olhares apaixonados,
poses irrelevantes!

Olho na cena,
marcando o instante,
abraço apertado,
pensamento distante!

E quando o fato
nos deixa saudade,
peguemos a foto...
voltemos,pois,à felicidade!

Fernanda Foster
Petrópolis/RJ
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INSTANTÂNEOS

Imprimindo luz
Em lembranças 
Estáticas,
A objetiva
Se lança
Em imagens
Plásticas.

Logo que
A sombra
Assombra
O clique
É uma garra
Que congela
O agora.

As cores
Podem fugir
Dando lugar 
Ao sépia
Ou, em clima
Noir,
O preto
E branco.

A imagem
É um átimo de
Tempo
O olho é um
Deus severo
Cria, descria
Crítico
Impiedoso.

Eu quero
O instante
Eu quero
O semblante
O flash?
"Fiat Lux"!

Giancarlo Kind Schmid
Petrópolis/RJ
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Sonhos e restos...

Podres polaróides
em caixas de papelão
família inteira em pose
mortos em sépia no portão
sem pose ou close...
Papéis kodak em mil pedaços
quebra cabeça no lixo imundo da cozinha
violência de um ciúme triste e farto...
Gorduchos e analógicos álbums
desfalcados no percalço
de unir memória
e infante encalço!
Ensaios pós modernos
instantâneos, virtuais
de olhos de desejo em viés
sem ternos ou ofertas madrugais...
Arte que hoje 
quem quer faz
mas faço em pinhole
papel e cartaz...
Pra que tal bizarra captura
da vida ficcional
real não seja
no que enseja
em cada clic
um denso olhar fortuito
e a mais!

Juliana Brasil
Petrópolis/RJ
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No vazio das horas
Na calmaria da mente
Aparece uma imagem

Miragem perfeita,
Intacta,
Indiferente.

Leila Maria
Cruz das Almas/BA
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Entre um flash e outro um sorriso maroto
Uma pose, um encanto.
Entre um flash e outro um retrato esquecido
Guardado no entanto...
Pra um dia ser lido, relembrado, revivido

Tania Montoya
Petrópolis/RJ
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Estou lá.
Minha cara fala no papel.
Revelante,
Emoção gritante num instante capturada.
Nunca mais a mesma cara.
Nunca mais momento igual.
Tal qual vivi nessas belas telas,
sejam impressas ou a coisa toda digital.
Foto, foto, foto,
click,
um instante imortal.

Andreia Quintão
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O beijo

Os rádios anunciavam a plenos pulmões:
É o fim da Guerra que restava no Oriente!
Miséria, mortes, tristeza, lucro, rendições
E no meio de tudo, um beijo, somente.

O marinheiro não cabia dentro de sua euforia
Explodia de felicidade, cria na paz mundial
A enfermeira não continha sua alegria:
Em pleno Agosto celebravam o Carnaval!

Dois desconhecidos que se conheciam num beijo
Duas vidas entrelaçadas por uma conquista.
Mais que atração fatal ou desejo,
Era amor verdadeiro à primeira vista!

O mundo atômico nascia ao redor dos amantes
Enquanto o infinito para eles bastaria...
Nunca mais se veriam, não se conheciam antes
Mas aquele beijo se tornou imortal na fotografia.

Filipe Medon
Petrópolis/RJ

sábado, 16 de março de 2013

Homenagem aos 170 anos de Petrópolis

16 de Março - Parabéns, Petrópolis!



Poema de Carlos Maul, escrito em 1946


RETRATO DA MINHA CIDADE
1946

Minha cidade verde, aberta às claridades
Que o céu derrama em turbilhão de estrelas,
Não me espicaçam pontas de saudades,
Nem existem motivos para tê-las..

É que eu te sinto em mim, tal como outrora
Ainda te vejo em teus primeiros dias,
Como a cantar numa perpétua aurora
De nossa infância as lindas melodias.

Ouço os passos da marcha dos pioneiros
Nas picadas da serra
Batem machados, tombam robles altaneiros,
E na queda um rumor se levanta
Como um grito de dor escapo da garganta
Da terra.

Ouço os passos da marcha dos pioneiros...
Lá vão eles, vão subindo, vão subindo,
Vão sofrendo, vão cantando, vão sorrindo,
Heróis sem nome, mas heróis porque os primeiros...
Quanto tempo durou a caminhada...
Chuva e sol, calmaria e tempestade,
Nada os deteve nessa ríspida escalada
Para a conquista da felicidade...

Dias rudes de sombra, os músculos retezos
No manejo da enxada e dos terçados,
Viveram eles ao trabalho escravizados,
mas alegres, à luz de um sonho presos.

Ouço os passos da marcha dos pioneiros...

Apenas a esperança os acompanha
Nessa dura ascensão. E como são ligeiros!...
E assim nasceu das mãos desses pioneiros
Minha linda cidade da montanha...
Escuto-lhes a voz nas marcha da subida...
Parece um canto-chão
De homens que vêm da morte para a vida
Cheios de fé no coração.

Oh! Minha cidade verde,
Não me emocionam as chaminés das tuas fábricas,
Nem a trepidação das tuas máquinas,
Nem os palácios que se escondem nos teus bosques
Envergonhados da própria opulência.
A civilização mudou tua fisionomia, 
Deu-te outras formas, transformou-te as linhas,
Mas na minha fantasia
Continuas a ser a aldeia pequenina,


Fresca juvenil e perfumada,
Com ares de menina
Na verdura a correr de madrugada
Como ninfa nascida da neblina.

És mais formosa assim, e em tuas águas espelhas
Os perfis dos teus montes,
A sombra das tuas pontes,
Das tuas pontes vermelhas...
Vem-me às narinas o teu cheiro agreste,
E eu te vejo melhor nos teus traços antigos:
Uma candura, uma expressão celeste
Na carícia das mãos, nos afagos amigos...

E o mesmo luar com que iluminavas as estradas
Nas noites frias das tuas doces primaveras,
Sinto-o agora, talvez mais claro e mais risonho
Do que nos dias das fulgentes alvoradas
Em que eras
A verdadeira fonte do meu sonho...

Encantada visão do alto da serra
Em cujos fogos minha alma se incendeia,
És a mesma feiticeira
Que vinha, sorrateira,
Para apagar a luz dos lampeões da terra
Se no céu se acendia a lua cheia.

Ouço o canto orfeônico dos órgãos das tuas igrejas
Onde aprendi a crer...
Minha terra cristã dos meus primeiros anos,
Quero que nesses templos me revejas
Com teus bondosos frades franciscanos
Que me ensinaram a ler...

Ressurges das tuas brumas a meu lado,
Na macia brancura de inocente,
Ressoa em mim a voz desse passado,
Que de tão vivo está em mim presente.
Com ternura penetro-te os refolhos, 
De tuas claridades me ilumino,
E suponho que em dias de menino
Roubei do céu o azul para os meus olhos.

De mil belezas te douras
Nesse esplêndido fulgor
Do teu eterno arrebol.
E em teu regaço entesouras,
- Cidade do meu amor – 
Crianças fortes e louras, 
De cabecinhas de sol...

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Canção à Terra natal

Me encanta e eu canto cá a tua beleza
Cenário dos mais lindos, divinal! 
A Koeller com seu porte de alteza
desfila até encontrar a catedral

O azul encontra o verde e é perfeito 
O Pai abençoou com majestade 
Fez tudo tão bonito e esse feito 
deu charme e formosura pra cidade

Nos versos que criei, digo portanto: 
aqui viver é bom, então eu canto 
o orgulho de ser filha dessa terra!

Saudoso avô por quem foi tão amada
que quis fazer daqui sua morada
Que bom que eu nasci aqui na Serra!

Texto e foto de Luciana Cunha
Petrópolis/RJ

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Petrópolis, o mais lindo dos amores

De um Córrego Seco nascia
A princesinha da bela Serra
Das mãos de Pedro florescia
A inspiração de nossa terra

Ares amenos para princesas
Terra fértil para os colonos
Congregação de realezas
União dos mais bravos tronos

Portugueses, Italianos e Alemães
Europa refeita em ares serranos
Despertar fecundo das manhãs
Política feita embaixo dos panos

Capital da política e da cultura
Berço de poetas e escritores
Terra límpida, alva e pura
Petrópolis, o mais lindo dos amores!

Filipe Medon
Petrópolis/RJ

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Sou filho deste chão

Cruzando os mares da aventura
Ergueram nossa história com bravura
Na força bruta da lida de cada dia
Inspiraram os versos de minha poesia
Homens destemidos se dispuseram a lutar
Mulheres de fibra impuseram seu lugar
E hoje nos recordamos com felicidade
Daqueles que construíram a nossa cidade
No papel aro a terra de outrora
O lápis é a enxada de agora
Para brindar a realização da façanha
De um povo destemido vindo da Alemanha
Conquisto a cada dia com meus versos
Um mundo novo, escrevendo universos
Na sinceridade da palavra, a emoção
De vencer na vida com um poema na mão
Deixo de lado a espada e a lança
Minha arma se chama esperança
Inspirado por esse espírito vencedor
Contagio a todos com meu amor
E hoje venho apenas agradecer
A vitória do colono alemão
Que a cada dia me faz crer
No orgulho de ser filho deste chão.

Filipe Medon
Petrópolis/RJ

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Bela vista de Petrópolis

Cidadezinha no alto da serra
aconchego do sol, recanto da lua
tens clima gostoso sem igual,
maravilhoso o amor em ti flutua.

O verão aqui é deveras quente,
no inverno é molhado, úmido e frio,
no outono hortênsias aqui até brotam
e é linda a visão do teu belo rio.

Teus recantos são amorosos
e não há no mundo outros mais iguais
tem museu, tem cachoeira e pardais.

Onde a natureza vive tranquila
não se vê a presença pobre do mal
linda vive, cidade imperial.

Rodolfo Andrade
Petrópolis/RJ