domingo, 17 de março de 2013

Fotografia


O que seria a vida sem registro? Como eternizar os momentos? Como, depois de anos, décadas, períodos, explicar exatamente algo, sem ter o recurso da fotografia?
Pensando nisso resolvemos fazer dessa arte o desafio poético da Confraria.
Dedicamos esse post a tantos mágicos poetas que traduzem em imagem o que tentamos traduzir em versos.

Poeta das lentes com olhos humanos

Poeta das lentes,
vê o mundo sob o foco
Que parte de seu próprio olhar.
Capturando nuance,
Vislumbrando o alcance
Do que as suas lentes podem abraçar.

Sonho, flash, transparência,
Tudo é matéria, é inspiração.
Poeta das lentes, faminto de imagens...
Mas o mundo só as oferece
Aos que trazem nos olhos
A percepção.

Poeta das lentes,
O mundo sob o seu foco
Ganha outra dimensão.
Outras cores, outros ares
É fagulha, sintonia...
Explosão.

Catarina Maul
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Flash

Movimento
Indelével momento
Fragmentos
Eternos.

Ana Lucia Souza Cruz
Campos dos Goytacazes
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RECIPROCIDADE ( ou FOTOGRAFIA DE UMA SOLIDÃO) 

Às vezes,
Ela se sentava,
Displicentemente, à janela.
Em seu silencio, olhava tudo que lhe vinha lá de fora
E, durante horas, se colocava a escrever e escrever.

Às vezes, quando a via assim,
Eu queria tanto e tanto lhe falar,
Mas não sabia como, sem perturbar.

De seu silêncio,
Não raro ela me olhava e sorria.
E eu também a olhava e sorria,
Retribuindo a atenção que havia, entre silêncios.

Tempos depois ela partiu.
E até hoje eu me sento displicentemente à janela,
Olho tudo que me vem lá de fora,
E me coloco a escrever e escrever
O que o meu silencio
Jamais me deixou lhe dizer

Revirando as poucas coisas que ela deixou,
Havia uma página escrita
Em que ela dizia
O quanto meu silencio lhe doía
E o tanto e tanto que ela queria me falar,
Mas não sabia como, sem perturbar.

E quando olho tudo que me vem lá de fora,
Reflito no coração o modo como ela me olhava e sorria.
E, então, escrevo, 
Como ela escrevia,
Para falar do silencio que tanto doía

Carmem Teresa Elias
Rio de Janeiro/RJ
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Um click
e
nasce 
a
eternidade.

Luiz Fernando Villas Bôas
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FOTO-GRAFIA

Qual é o olhar de uma foto-grafia?
Captura-se uma alegria?
Registra-se um sofrimento?

Eu focava os seus olhos !
E aquele negro entendimento
Que eu pensava ver do tempo.

Mas a imagem revelada exibia mais que meus cuidados
Imprimira a anônima realidade colorida à sua volta
Imprimira o conteúdo absurdo do mundo!!

E o seu olhar...
Perdido
Na multidão.

Carmem Teresa Elias
Rio de Janeiro/RJ
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Vou achar uma aura,
Vou perde-me no seu tempo,
Ver seu rosto em meu gosto.
È o futuro de uma estrela
È uma ponte entre o sim e gozo
De sentimentos e gestos
Protegendo a fonte da eterna juventude.
Aqui o momento é tempo
De eternizar o seu nome
Num retrato bem memorizado e amado.
A foto é um tento ao rito.
É a única que não desaparece do espírito.

Fernando Sousa Andrade
Rio de Janeiro/RJ
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Coração, casa-cor

Fiz na foto o final do evento...
Quando a maquiagem não mais escondia,
Esses compromissos de outrora, 
Desgastando o meu momento.

... Rupturas e permanências...
O que entregaria a você além da excessiva flor...?
Muitos rostos exibindo cremes...
Outros escondidos atrás de seus dentes...

Que vontade de arrancar aquela decoração exuberante!
Gritar que tudo deve ser como rostos em dia de verão.
E não um salão exaltado, passarela de desfile de outra emoção...!
De que valeria dizer no convite que a festa não é a rigor...?

Que não traga mais flores expostas em abraços!
Não descolorem as matas de seus manacás!
Não alegue que o amor prefira cores sem fins!
Fotografe sem compromisso... Mas prefiro a solidão de meu jardim!

De Magela e Carmem Teresa Elias
São Paulo/SP - Rio de Janeiro/RJ

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Revivendo 

Momentos...
Doces momentos
Guardo no porta-retratos

Cada cena, uma lembrança
Cada sorriso, uma esperança
E a vida passando em lances

Cleide Jean
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Meus olhos

Meus olhos, quanta magia
ao captar a beleza,
oferta da natureza
que me traz tanta alegria
ao raiar de um novo dia,
no verde lá da colina!
Mas se lembro da menina,
renasce aquela saudade
dos tempos de pouca idade.
Isso ainda me alucina.

Meus olhos, que travessura,
com suas lentes perfeitas
registravam sem suspeitas
seu olhar de formosura
e sua bela escultura!
Hoje é só melancolia
no peito em que ela vivia,
mas sei o quanto era linda, 
pois minh’alma guarda ainda
a sua fotografia.

Gilson Faustino Maia
Petrópolis/RJ

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Foto de Cartier-Bresson

Fragmomento

A vida é fugaz
Jamais se detém
E a foto a retém
Não deixa pra trás

E assim congelada
a história fadada
ao esquecimento
é eterno momento

A fotografia
Centelha-faísca
é um olho que pisca
pro que morreria

Que coisa engraçada
Vida é movimento
O ínfimo fragmento
é foto parada

Jorge Ricardo Dias
Rio de Janeiro/RJ
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E a imagem se fez

Encanto
magia 
tristeza 
alegria.

Reflexo 
latente 
sombra 
veemente.

Textura 
revela 
cores 
congela.

Marca 
magia 
vida 
fotografia.

Rodolfo Andrade
Petrópolis/RJ
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O tempo só não passa na fotografia

Anotações escondidas em um diário na gaveta;
Uma foto na espera silenciosa de que algo aconteça.
Dar algumas voltas é método do destino...
Quem sabe, se algumas verdades ele não solta?

Olhando aquelas coisas, ali bem guardadas, lembrei-me de minha prisão.
Da perfídia das boas intenções que vira o amor, roubando palavras
Para esconder os fantasmas que a alma gospe,
E sem dar maiores resignações...

Com a mesma sensação de quando se inspeciona o silêncio!
Percorrendo a saudade, como se ela fosse um simples diário!
Tendo entre as mãos do desespero, do tempo que só não passa na fotografia...!
E como pessoa não autorizada, a alma não se deixa penetrar por essa ousadia.

Meu amor não é vitoriano e dos bons modos!
Nunca buscou forma e confrontação...
Não soube de veneno, lábio embevecido!
Não ficou no passado, como um amor esquecido.

Roma Magela
São Paulo/SP
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Fotomagia

Disseram-me que era impossível parar o tempo,
Aproveitar mais daquele momento de alegria
Porém não aceitei.

Não fui a única a refutar tão regra, quem seria?!
Alguém com mais conhecimento que eu
Um bruxo que criou uma caixa mágica.

E nesta caixa pode se guardar as alegrias
Aquele segundo inesquecível fica impresso em cores.
Aquela cena vivida cabe em suas mãos.

E o verbo fotografar nasce.
E o verbo admirar se intensifica.

Laleska Freitas
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PRETO E BRANCO

O canto
Que a foto não roubou
Do pássaro...

O ruído do vento
Que para sempre soprará
Na lembrança

O que a foto guardou da imaterialidade do momento ?
Apenas um ponto de luz
Aprisionado na escuridão da nostalgia !

Beatriz Ribeiro
Rio de Janeiro/RJ
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Antes do "click",
o sorriso,ele ficará
mesmo velha,amarelada
a lembrança lá está!

Momentos felizes,
registros marcantes,
olhares apaixonados,
poses irrelevantes!

Olho na cena,
marcando o instante,
abraço apertado,
pensamento distante!

E quando o fato
nos deixa saudade,
peguemos a foto...
voltemos,pois,à felicidade!

Fernanda Foster
Petrópolis/RJ
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INSTANTÂNEOS

Imprimindo luz
Em lembranças 
Estáticas,
A objetiva
Se lança
Em imagens
Plásticas.

Logo que
A sombra
Assombra
O clique
É uma garra
Que congela
O agora.

As cores
Podem fugir
Dando lugar 
Ao sépia
Ou, em clima
Noir,
O preto
E branco.

A imagem
É um átimo de
Tempo
O olho é um
Deus severo
Cria, descria
Crítico
Impiedoso.

Eu quero
O instante
Eu quero
O semblante
O flash?
"Fiat Lux"!

Giancarlo Kind Schmid
Petrópolis/RJ
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Sonhos e restos...

Podres polaróides
em caixas de papelão
família inteira em pose
mortos em sépia no portão
sem pose ou close...
Papéis kodak em mil pedaços
quebra cabeça no lixo imundo da cozinha
violência de um ciúme triste e farto...
Gorduchos e analógicos álbums
desfalcados no percalço
de unir memória
e infante encalço!
Ensaios pós modernos
instantâneos, virtuais
de olhos de desejo em viés
sem ternos ou ofertas madrugais...
Arte que hoje 
quem quer faz
mas faço em pinhole
papel e cartaz...
Pra que tal bizarra captura
da vida ficcional
real não seja
no que enseja
em cada clic
um denso olhar fortuito
e a mais!

Juliana Brasil
Petrópolis/RJ
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No vazio das horas
Na calmaria da mente
Aparece uma imagem

Miragem perfeita,
Intacta,
Indiferente.

Leila Maria
Cruz das Almas/BA
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Entre um flash e outro um sorriso maroto
Uma pose, um encanto.
Entre um flash e outro um retrato esquecido
Guardado no entanto...
Pra um dia ser lido, relembrado, revivido

Tania Montoya
Petrópolis/RJ
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Estou lá.
Minha cara fala no papel.
Revelante,
Emoção gritante num instante capturada.
Nunca mais a mesma cara.
Nunca mais momento igual.
Tal qual vivi nessas belas telas,
sejam impressas ou a coisa toda digital.
Foto, foto, foto,
click,
um instante imortal.

Andreia Quintão
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O beijo

Os rádios anunciavam a plenos pulmões:
É o fim da Guerra que restava no Oriente!
Miséria, mortes, tristeza, lucro, rendições
E no meio de tudo, um beijo, somente.

O marinheiro não cabia dentro de sua euforia
Explodia de felicidade, cria na paz mundial
A enfermeira não continha sua alegria:
Em pleno Agosto celebravam o Carnaval!

Dois desconhecidos que se conheciam num beijo
Duas vidas entrelaçadas por uma conquista.
Mais que atração fatal ou desejo,
Era amor verdadeiro à primeira vista!

O mundo atômico nascia ao redor dos amantes
Enquanto o infinito para eles bastaria...
Nunca mais se veriam, não se conheciam antes
Mas aquele beijo se tornou imortal na fotografia.

Filipe Medon
Petrópolis/RJ

3 comentários:

Elciana Goedert disse...

Uau!! Ficou demais!!!!
Ótimos "registros"... =)

Carmem Teresa Elias disse...

FOtografado !! E divulgando !!

Rodolfo Andrade disse...

No olhar é guardado
o fato de um dia
do beijo não dado
é fotografia.

Esta no olhar de todos aqui uma forma diferente de viver a fotografia.
Muito bom